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BRASIL SOMA MAIS DE 40 MORTES POR FEBRE AMARELA E OUTRAS 49 SUSPEITAS. "SURTO JÁ É TRAGÉDIA ANUNCIADA"

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Já foram confirmadas 41 mortes por febre amarela este ano no Brasil. Outras 49 estão sob investigação. Ao todo, foram registrados 439 casos suspeitos no país, dos quais 70 foram confirmados. Os números estão bem acima dos registrados nos últimos anos, quando havia, em geral, menos de dez casos confirmados.

(Em coletiva no final da tarde desta quarta-feira, o Ministério da Saúde divulgou um total de 40 mortes: 37 em Minas Gerais e três em São Paulo. No entanto, a Secretaria do Estado de MG já confirmou, em seu último boletim, 38 óbitos. Portanto, o total é de 40 no país, até o momento)


Segundo o Ministério da Saúde, os registros de 2017 já superam o do último grande surto, ocorrido entre 2007 e 2008, quando houve 48 casos confirmados, dos quais 28 terminaram em morte.

Este ano, dos casos em investigação, 47 são em Minas e dois no Espírito Santo. Ao todo, entre mortes confirmadas e suspeitas, há 25 municípios afetados.

Dos 70 casos confirmados, independentemente de ter levado à morte ou não, 66 foram registrados em Minas Gerais, três em São Paulo e um no Espírito Santo. Outros quatros casos — um em Minas, um na Bahia e dois no Distrito Federal — já foram descartados. Por fim, há ainda 364 casos em investigação, dos quais 337 em Minas, 21 no Espírito Santo e seis na Bahia. Ao todo 61 municípios, maioria em Minas e no Espírito Santo, foram afetados.

11,5 MILHÕES DE DOSES EXTRAS

O Ministério da Saúde também informou nesta quarta-feira que reforçará com 11,5 milhões de doses o estoque da vacina contra a febre amarela. Mas destacou que nem todas as pessoas precisam se vacinar. Uma procura desenfreada pode levar à falta de vacina para quem realmente precisa. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, um aumento na procura fez o estoque de vários postos de saúde se esgotar.

Segundo o Ministério da Saúde, há quatro grupos de pessoas que precisam se vacinar: quem vive em áreas que registraram casos de febre amarela; quem mora em regiões próximas; quem mora em áreas com suspeitas de mortes de animais provocadas pela doença; quem está viajando para regiões próximas das áreas de alerta.



— Se na região metropolitana houver uma procura desenfreada, vai haver uma injustiça social e vamos deixar de vacinar nas áreas de maior risco - afirmou o secretário de Saúde do Rio de Janeiro, Luiz Antônio de Souza Teixeira Júnior, presente em entrevista coletiva realizada no Ministério da Saúde.

Segundo o Ministério da Saúde, foram distribuídas 5,4 milhões de doses extras este ano: 2,9 milhões para Minas, 400 mil para a Bahia, 1,05 milhão para o Espírito Santo, 700 mil para São Paulo, e 350 mil para o Rio.

No caso do Rio, a ideia é vacinar a população de 14 municípios próximos de Minas, onde está ocorrendo o surto da doença, criando uma espécie de barreira contra o avanço da doença. Até agora, havia recomendação de vacinação para áreas de 19 estados brasileiros, mas o Rio estava de fora. A medida é considerada preventiva, e o restante do estado continua fora da área de recomendação.

Na virada do século 19 para o 20, as cidades do Brasil sofriam com problemas de saneamento básico e recorrentes epidemias. Na época, o sanitarista Oswaldo Cruz conseguiu erradicar a doença, que volta a assombrar o país.

Há mais de cem anos, o sanitarista Oswaldo Cruz conseguiu, numa campanha até então inédita, acabar com focos do mosquito Aedes aegypti e erradicar as recorrentes epidemias de febre amarela nas grandes cidades do país – isso numa época em que não havia vacina contra a doença.

Agora, no entanto, a enfermidade ameaça voltar aos centros urbanos.

Por que um problema resolvido há mais de um século volta a assombrar a população? Para o historiador Marcos Cueto, da Casa de Oswaldo Cruz, trata-se de um retrocesso e também de uma tragédia anunciada. "Na história das epidemias do século 21, muitas vezes a dengue antecede a febre amarela. Mas aqui as lições da História não são levadas em conta", afirma o especialista, que é também editor científico da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos.

Na virada do século 19 para o 20, as condições de saneamento nos principais centros urbanos do país eram insalubres. Mesmo na antiga capital, o Rio de Janeiro, o problema era grave e responsável, diretamente, pelas recorrentes epidemias de febre amarela. A situação era tão séria que muitos navios estrangeiros evitavam aportar por aqui em determinadas épocas do ano – o que trazia consequências econômicas.

Rodrigues Alves assumiu a Presidência da República em 1902 disposto a dar um basta àquela situação. Logo no ano seguinte, Oswaldo Cruz foi chamado a assumir a diretoria-geral de Saúde Pública – um cargo similar ao de ministro da Saúde – com a espinhosa missão de acabar com a febre amarela.

O médico criou o Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, que logo colocou nas ruas as chamadas brigadas de mata-mosquitos – grupos de agentes sanitários cujo objetivo era eliminar os focos de mosquito a qualquer custo. O modelo de ação era truculento, com os agentes de saúde percorrendo todas as casas e destruindo todos os locais de desova do mosquito transmissor. Mas surtiu efeito: em 1907, a epidemia foi considerada erradicada. E desde 1942 não há registros de transmissão de febre amarela nos centros urbanos.

"No Brasil e em muitos países da América do Sul este era um problema considerado controlado; restrito a regiões amazônicas", afirma Cueto. "Desde o fim dos anos 20, praticamente não houve nenhum surto epidêmico nas cidades. E desde 1937 existe uma vacina".

Para Cueto, no entanto, de lá para cá, predominou no país uma atitude passiva e tolerante com o mosquito transmissor da febre. "Os controles foram ficando cada vez mais relaxados [e por essa mesma razão houve um aumento da dengue e do zika]. Não houve uma política de vacinação entre a população urbana e o número de moradores das cidades só aumentou", explica o especialista.

As cidades cresceram de forma desordenada, e as áreas mais pobres e sem saneamento são os maiores focos de proliferação do mosquito. No caso de novos surtos da doença, são justamente as parcelas menos favorecidas da população que mais sofrerão com o problema.

Para Cueto, medidas individuais para controle de larvas – como apregoa hoje o governo – não são suficientes. "Temos que resolver os problemas de água, moradia e pobreza que fazem com que existam muitos reservatórios nas favelas", diz o especialista. "E além disso, temos que resolver o problema da criminalidade nas favelas, que impede o trabalho de sanitaristas no controle dos reservatórios e na educação higiênica."

Para o historiador, Oswaldo Cruz é um exemplo de liderança a ser seguido, embora não represente mais um modelo. "Agora existem novos desafios, temos problemas novos, precisamos de respostas mais complexas", afirma. "Precisamos resolver a questão da pobreza urbana e fazer com que a vacina seja acessível para todos."

Fonte: O Globo e DW

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