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MAIS CRISE: DA VENEZUELA AO IRAQUE, QUEDA DO PREÇO DO PETRÓLEO AUMENTA


O petróleo, a força vital de muitos países que o produzem e vendem, parece estar se transformando rapidamente em uma maldição econômica cada vez mais barata. Há um ano, o preço por barril de petróleo era de aproximadamente US$ 103. Na segunda-feira, o preço era de aproximadamente US$ 42, cerca de 6% mais baixo do que na sexta-feira.

No Iraque rico em petróleo, onde a insurreição do Estado Islâmico e a turbulenta política sectária são ameaças crescentes, uma nova fonte de instabilidade surgiu neste mês, com protestos violentos em torno do fracasso do governo em fornecer eletricidade de forma confiável e em explicar o que tem sido feito com todo o dinheiro prometido do petróleo.

Na Rússia, uma grande produtora de petróleo, os consumidores agora estão pagando muito mais pelos importados, em grande parte devido à alta desvalorização de sua moeda. Na Nigéria e na Venezuela, que dependem quase que completamente das exportações de petróleo, os temores de distúrbios e instabilidade econômica estão crescendo. No Equador, onde a receita do petróleo caiu quase pela metade desde o ano passado, dezenas de milhares de manifestantes vão às ruas toda semana, furiosos com a política econômica do governo.

Mesmo na rica Arábia Saudita, onde a família real governante gasta prodigamente o dinheiro do petróleo para preservar sua legitimidade, o governo tem gasto aproximadamente US$ 10 bilhões de suas reservas de moeda estrangeira por mês para ajudar a pagar pelas despesas, e está tomando empréstimos nos mercados financeiros pela primeira vez desde 2007. Outros países árabes no Golfo Pérsico que são dependentes das exportações de petróleo, como o Kuait, Omã e Bahrein, estão enfrentando déficits fiscais pela primeira vez em duas décadas.

Apesar do preços estarem caindo há meses, as previsões sempre foram apoiadas na suposição de que o preço do petróleo se estabilizaria ou que não permaneceria baixo por muito tempo. Mas as novas ansiedades com as fragilidades na China, a consumidora mais voraz de energia do mundo, aumentaram os temores de que o petróleo, com preço 30% mais baixo do que há apenas poucos meses, poderá permanecer deprimido por mais tempo do que até mesmo as projeções mais pessimistas, e causar estragos ainda mais profundos aos exportadores de petróleo.

“A dor é muito dura para esses países”, disse René G. Ortiz, o ex-secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e ex-ministro de Minas e Energia do Equador. “Esses países sonhavam que os preços baixos seriam temporários.” Ortiz estimou que todos os grandes exportadores de petróleo perderam um total de US$ 1 trilhão em vendas de petróleo devido à queda do preço no último ano.

“A aparente fraqueza da economia chinesa está se espalhando pelo mundo”, disse Daniel Yergin, vice-presidente da IHS, uma das principais fornecedoras de informações de mercado, e autor de dois livros sobre a história da indústria do petróleo, “The Prize” e “A Busca”.

“Muitos produtores que desfrutaram dos bons tempos eram mais dependentes do crescimento econômico chinês do que reconheciam”, disse Yergin. “Trata-se de um choque do petróleo.”

É claro, preços mais baixos do petróleo também resultam em benefícios econômicos. Um lar médio americano, por exemplo, compra cerca de 4.500 litros de gasolina por ano. E a gasolina, em média, está sendo vendida neste ano aproximadamente por um dólar a menos por galão (3,78 litros) do que em 2014.

Mas enquanto os preços mais baixos do petróleo estimulam as economias dos países consumidores, um declínio prolongado pode resultar em muitas consequências inesperadas –começando pela fraqueza econômica dos países em desenvolvimento que compram cada vez mais bens dos Estados Unidos e de outros no mundo industrializado.

Um excesso de oferta é evidente há algum tempo, provocado em parte pelo vasto aumento da produção saudita e pela crescente autossuficiência dos Estados Unidos, que antes era altamente dependente do petróleo do Oriente Médio.

A Arábia Saudita não está apenas produzindo uma quantidade recorde, mas também aumentando o número de sondas de perfuração para futura produção. E seus aliados no Golfo, os Emirados Árabes e o Kuait, estão fazendo o mesmo. Mesmo com a turbulência provocada pelo Estado Islâmico, a produção do Iraque aumentou quase 20% desde o início do ano.

O excesso de oferta global provavelmente aumentará caso o acordo nuclear com o Irã seja aprovado, potencialmente adicionando ao mercado até 1 milhão de barris a mais aos 94 milhões de barris por dia do mercado global em cerca de um ano.

O ministro do petróleo do Irã, Bijan Namdar Zanganeh, não faz segredo sobre as intenções de seu país. “Nós aumentaremos nossa produção de petróleo a qualquer custo e não temos outra alternativa”, ele foi citado no domingo pela imprensa estatal do Irã como tendo dito.

A grande mudança nos últimos anos foi o aumento da produção de petróleo nos Estados Unidos, adicionando mais de 4 milhões de barris por dia à oferta global. Mas nos últimos meses o excesso de oferta tem sido provocado principalmente pelos sauditas, que inundaram o mercado, no que os economistas consideram uma tentativa deliberada de derrubar o preço, para que outros produtores de alto custo não possam mais competir –mais notadamente os americanos.

Mesmo assim, a produção nos Estados Unidos não caiu tanto quanto previsto pelos sauditas, que achavam que o preço do petróleo estabilizaria em torno de US$ 50 o barril. Agora, ele pode chegar a US$ 30, o nível mais baixo desde a recessão econômica global de 2008.

Os sauditas, os membros mais importantes da OPEP, resistem aos pedidos de outros membros da organização para redução da produção. O resultado é que quase todos os membros da OPEP, que juntos controlam muito menos o mercado global do que antes controlavam, estão produzindo mais petróleo.

“Nós estamos testemunhando uma concorrência entre os países membros por fatia de mercado, e a maioria desses países é dependente do petróleo como principal fonte de receita”, disse Luay al-Khatteeb, um membro não-residente de política externa do Brookings Doha Center. Se os preços não se recuperarem para o patamar de US$ 60 o barril, ele disse, “e os países da região árabe continuarem a depender altamente da receita do petróleo, poderemos ver décadas de declínio”.

Meghan L. O’Sullivan, diretora do programa de geopolítica da energia da Escola Kennedy de Harvard, disse que está mais preocupada com o impacto dos preços baixos prolongados do petróleo sobre o Iraque.

“Não apenas combater o EI é um empreendimento caro, mas muitos dos acordos políticos que precisam ser feitos para a manutenção do apoio de grupos diferentes ao governo iraquiano exigem dinheiro”, ela disse.

Mas O’Sullivan expressou uma preocupação de longo prazo com um possível erro de cálculo da Arábia Saudita, a respeito tanto da duração quanto da magnitude da queda nos preços do petróleo.

“Com uma parte crescente da população à procura de emprego, educação e atendimento de saúde a cada dia”, ela disse, “o contrato social caro entre a família real e os cidadãos sauditas se tornará mais difícil, e futuramente impossível, de ser sustentado caso os preços do petróleo não se recuperem”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times.

Via: https://apocalipserevelado22.wordpress.com/

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